Um senhor policial

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Um senhor policial

postado por: André Batista data: out 26, 2010 categoria: Bope, Polícia Militar, Tropa de Elite

André Batista é um dos melhores nomes da polícia do Rio. Ele é major da PM, ex-capitão do Bope e atual chefe do escritório de gerenciamento de projetos da Polícia Militar. Entrevistei-o para a coluna Dois Cafés e a Conta, aproveitando o lançamento de “Tropa de elite 2″.

A razão é que Batista, junto com o ex-capitão do Bope Rodrigo Pimentel, o delegado Cláudio Ferraz e o antropólogo Luiz Eduardo Soares, escreveu o livro “Elite da tropa 2″, que está saindo com o filme. Ele já havia escrito “Elite da tropa 1″.

O curioso é que, na época do primeiro livro, Batista foi humilhado, ameaçado de prisão e considerado traidor pela corporação – a mesma corporação que agora o promove, muito justamente, a um cargo responsável por pensar a polícia de amanhã.

Uma das razões que o levaram a escrever o primeiro livro foi o fracasso do caso do ônibus 174. Ele era o negociador do sequestro, que terminou com a morte da estudante Geísa.

– Existem quatro alternativas táticas. Primeiro você negocia. Se não der certo, usa o gás. Depois, o tiro fatal, o chamado tiro de comprometimento. E, por fim, tem o assalto tático, em que um grupo armado entra para matar o sequestrador. No caso do 174, não dava para usar o gás por causa dos reféns. Igualmente, os fuzis de precisão estavam todos com as lunetas mofadas. E, finalmente, não tínhamos treinamento para entrar. Foi a falência total. Precisávamos mostrar que o policial é angustiado, não estava satisfeito com a missão, com o salário, com a falta de material.

Somente após o sequestro, diz ele, é que o Bope se transformou numa máquina de guerra.

– De 2000 para cá, tivemos 100% das operações de resgate de reféns bem sucedidas.

Os dois livros expõem as entranhas da polícia, revelando a corrupção e a violência. Curiosamente, mesmo os policiais bandidos gostam.

– Um tenente me ligou e disse: “Prendi dois policiais na favela, de folga, em atitude suspeita. Revistei o carro e achei o livro do senhor. O que faço, entrego na delegacia como prova?”. Eu disse: “Fica com você, depois eu autografo.” Os dois policiais estavam negociando a proteção de máquinas caça-níquel e, segundo o tenente, estavam lendo e falando bem do livro. Eu escrevi a obra para os bons policiais, mas os maus liam e se reconheciam, pensando: “Sou eu aqui. Eles sabem que eu existo, não estou fazendo nada impunemente.”

Batista perdeu a conta do número de vezes que subiu em favela durante operações especiais. Com base nessa experiência, diz:

– É brasileiro contra brasileiro. Depois de usar a força máxima, você vê que não dá para usá-la sem antes usar outras ferramentas: a aproximação com a comunidade, a inteligência, a informação. É como faz a Polícia Federal.

Ele cursava direito na PUC enquanto estava no Bope. Era difícil conciliar as aulas com as várias operações. De vez em quando, pedia para o colega Rodrigo Pimentel cobri-lo.

– Eu falava: “Pimentel, tenho prova hoje. Você fica no meu lugar?”. Não é como cobrir um plantão qualquer. No caso, ele podia morrer. Um cara desses é teu amigo para sempre.

Batista inspirou o personagem André Matias do filme “Tropa de elite”, de José Padilha, interpretado pelo ator André Ramiro. No filme “Última parada: ônibus 174″, de Bruno Barreto, Batista deu consultoria e foi novamente interpretado por Ramiro.

O major diz que o Bope vai mirar todas as suas baterias na pacificação, ou seja, nas UPPs. A sede vai sair da favela Tavares Bastos, no Catete, para a Maré, na entrada do Rio, local estratégico para as Olimpíadas. Os moradores da Tavares Bastos vão sentir falta:

– Já tem faixa lá dizendo: “Bope, não saia daqui.”

 

Por Mauro Ventura | 12.10.2010
http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/dizventura/posts/2010/10/12/um-senhor-policial-332087.asp#.VMj3MjWR2bs.google

postado por: André Batista data: out 26, 2010 categoria: Bope, Polícia Militar, Tropa de Elite

André Batista

Tenente Coronel da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, é formado em direito pela PUC/RJ, com pós-graduação em Políticas Públicas, Segurança e Cidadania pela UFRJ. Atualmente ocupa o cargo de Assessor de Segurança para Grandes Eventos da Subsecretaria de Gerenciamento de Projetos da Casa Civil do Governo do Estado do Rio de Janeiro. Foi Subsecretário de Valorização da Vida e Prevenção da Violência no Município de Nova Iguaçu/RJ, no período de 2007 a 2009. Chefiou a seção de Planejamento e Operações do BOPE, chefiou a segurança do Secretário de Segurança do Estado do Rio de Janeiro em 2002 e comandou bases destacadas do Grupamento Especial Tático Móvel. Atuou na formação, treinamento e comando de equipes de alto rendimento em diversas unidades, especialmente no BOPE, onde foi subcomandante e serviu por 10 anos. Comandou Equipes de Operações Especiais como Tenente e Capitão entre 1996 e 2002, antes de assumir o Subcomando das Unidades de Intervenção Tática daquela unidade. Coautor dos livros ELITE DA TROPA I e II, publicado em espanhol, francês, polonês, inglês e italiano e consultor do filme TROPA DE ELITE I tendo sido, inclusive, retratado na película.